O QUE VOS INSPIROU A CRIAR A WEWOOD E QUAL É A FILOSOFIA DA MARCA?
Wewood – Portuguese Joinery foi oficialmente fundada como marca em 2012, mas as suas origens remontam a quatro anos antes, quando os irmãos Salvador Gonzaga e Carlos Silva, proprietários da segunda geração da Móveis Carlos Alfredo, começaram a desenvolver a ideia de criar uma marca de design orgulhosa das suas raízes e assente em princípios como a qualidade dos materiais, a durabilidade da construção e o design intemporal.
A criação da Wewood não surgiu propriamente de uma inspiração, mas sim de uma necessidade. Durante um período de crise económica e financeira que afetou a Europa e, em particular, Portugal, as vendas de mobiliário clássico da fábrica para os mercados francês e espanhol começaram a diminuir. Perante este desafio, os irmãos procuraram uma solução: criar uma marca própria, colaborar com designers, desenvolver uma pequena coleção e explorar novos mercados e públicos.
A filosofia da Wewood manteve-se profundamente ligada aos valores da empresa que lhe deu origem. Preservou o património, o saber-fazer artesanal e as tradições familiares da Móveis Carlos Alfredo, continuando a trabalhar com madeira maciça e artesãos especializados. Ao mesmo tempo, a marca passou a integrar o contributo criativo de designers no desenvolvimento dos seus produtos, combinando tradição e inovação para responder às exigências de um mercado em transformação, privilegiando uma comunicação genuína em vez de uma abordagem centrada no marketing.
COMO INTEGRAM O TRABALHO ARTESANAL E A SUSTENTABILIDADE NA VOSSA ATIVIDADE?
A qualidade dos nossos produtos está profundamente ligada à rica tradição portuguesa do trabalho artesanal e da produção de mobiliário. Procuramos melhorar continuamente os nossos processos, integrando novas tecnologias que apoiem os nossos artesãos, sem nunca os substituir. Muitos dos nossos colaboradores permanecem connosco ao longo de toda a vida profissional, transmitindo os seus conhecimentos e experiência de geração em geração. Este saber acumulado constitui a base do nosso trabalho artesanal e permite-nos garantir a excelência de cada peça que produzimos.
Trabalhamos principalmente com madeira maciça, um material natural e duradouro, valorizado pela sua beleza e pela forma como envelhece ao longo do tempo. Sendo uma parte essencial do ecossistema global, a madeira deve ser utilizada de forma responsável, uma responsabilidade que levamos muito a sério. O carvalho e a nogueira utilizados no nosso mobiliário são provenientes de florestas geridas de forma responsável e de outras fontes controladas. Seguimos os padrões de certificação de gestão florestal FSC, promovendo práticas sustentáveis que contribuem para a preservação da biodiversidade e para o apoio às comunidades locais.
A sustentabilidade não diz respeito apenas ao ambiente, mas também às pessoas. Reconhecemos que o abate de árvores tem um impacto ambiental, mas é também uma atividade que garante o sustento de mais de 100 pessoas na nossa empresa. Para assegurar a continuidade do nosso ofício e o nosso futuro, estamos comprometidos com uma gestão florestal responsável, garantindo que continuaremos a ter acesso à madeira necessária para criar as nossas peças.
DE QUE FORMA O VOSSO TRABALHO SE RELACIONA COM A CULTURA E AS TRADIÇÕES LOCAIS?
A nossa fábrica está localizada na região de Paredes, uma zona reconhecida pela produção de mobiliário, que constitui um dos principais pilares da economia local. Podemos dizer que praticamente todas as famílias desta região têm, pelo menos, um elemento ligado à indústria da madeira.
Poderíamos romantizar esta história, recordando que os povos ibéricos trabalham a madeira desde a Pré-História ou que os portugueses já dominavam as técnicas de construção em madeira maciça no século XV, quando construíam as caravelas que os levaram a África, à América do Sul e à Ásia. Mas a verdade é que, embora estes marcos históricos sejam impressionantes, a cultura e a tradição devem estar enraizadas no presente, no quotidiano das pessoas, e não apenas no passado.
Na nossa cultura local, a madeira é muito mais do que um material: é uma forma de vida. As técnicas de carpintaria, o vocabulário próprio das fábricas e até as expressões utilizadas pelos artesãos fazem parte das conversas do dia a dia, seja à mesa de um café ou durante um jantar em família. É isso que define a cultura. Acredito verdadeiramente que a cultura local é mais importante do que a cultura nacional. Até o lápis de carpinteiro atrás da orelha é um símbolo de tradição, património e, de certa forma, até de estilo.
PODEM FALAR-NOS SOBRE AS PEÇAS QUE ESTÃO A CRIAR PARA A QUINTA FILIPPA E O QUE AS TORNA ESPECIAIS?
Para a Quinta Filippa, estamos a produzir uma coleção de cadeiras e cadeirões Caravela em carvalho, com o nosso novo acabamento Golden Brown, apresentado este ano, e tecidos de qualidade superior selecionados pela equipa da Quinta Filippa.
A família de cadeiras Caravela foi originalmente desenhada em 2017 pelo nosso antigo diretor de design, Gonçalo Campos, um dos designers portugueses da sua geração com maior reconhecimento internacional. Produzidas cuidadosamente através de técnicas tradicionais de marcenaria, a cadeira e o cadeirão Caravela fazem parte de uma coleção sofisticada, concebida para conferir estilo e elegância tanto a espaços residenciais como a espaços de hotelaria.
Inspirado na tradicional caravela portuguesa, o design destas cadeiras presta homenagem a um dos capítulos mais marcantes e ousados da história de Portugal. A caravela era uma embarcação à vela, pequena e altamente manobrável, desenvolvida pelos portugueses no século XV, que permitiu a exploração da costa ocidental africana e do oceano Atlântico. A forma da cadeira Caravela evoca as velas desta embarcação histórica, combinando robustez e elegância e refletindo o espírito de aventura e o saber-fazer artesanal que marcaram uma época.

