RESIDÊNCIA ARTÍSTICA COM ILSE VAN STOLTZ: A POESIA DA CRIAÇÃO

O QUE SIGNIFICA PARA TI SER ARTISTA?

Para mim, ser artista é estabelecer um diálogo com o invisível. A Poesia dos Objetos (título de uma pintura de grandes dimensões criada durante a minha residência artística na Quinta Filippa). O meu processo é um diálogo íntimo, em que cada pincelada, cada decisão e cada momento de hesitação acrescentam uma camada invisível de intuição, ajustes, fracassos e conquistas. Não me prendo à obra final; pelo contrário, estou profundamente ligada ao próprio ato de criar. A obra de arte é o vestígio dessa experiência, uma composição que surge de forma orgânica. Quando a minha parte deste percurso termina, a história da obra deixa de me pertencer e passa a ser de quem a contempla, que é livre de a interpretar e sentir à sua maneira.

FALA-NOS SOBRE A TUA ARTE. O QUE A TORNA ÚNICA?

A minha arte é um processo de escavação, uma descoberta de emoções, texturas e tensões que existem sob a superfície. É construída em camadas, tanto físicas como conceptuais, através de uma interação intuitiva entre controlo e entrega. A singularidade do meu trabalho não está na forma final, mas nos ecos invisíveis do processo: as hesitações que não se veem, as linhas apagadas, os momentos de destruição e reconstrução. Cada peça guarda em si esta história, vibrando com a energia da sua criação.

Inspira-me profundamente o confronto entre opostos, a forma como os contrastes se encontram e se moldam mutuamente. Nas minhas composições, procuro a tensão entre fluidez e rigidez, entre suavidade e formas angulares. Tal como as colinas ondulantes contrastam com as linhas geométricas da arquitetura na paisagem que me rodeia na Quinta Filippa, o meu trabalho procura equilibrar a espontaneidade orgânica com uma intervenção estruturada. Este diálogo constante entre elementos que se opõem, mas que ao mesmo tempo se definem mutuamente, dá vida ao meu trabalho. Não se trata de alcançar uma harmonia perfeita, mas de acolher a beleza que nasce da dissonância, da forma como os opostos se desafiam e transformam uns aos outros.

QUE MATERIAIS UTILIZAS NAS TUAS CRIAÇÕES?

Escolho materiais que me permitam trabalhar de forma dinâmica, que possam ser sobrepostos, alterados e, por vezes, até desfeitos. As texturas e a profundidade são essenciais, pelo que trabalho frequentemente com uma combinação de tinta, técnicas mistas e elementos pouco convencionais, que conferem à superfície uma imprevisibilidade orgânica. A natureza física dos materiais reflete o meu processo criativo: feito de camadas, em estado bruto e em constante evolução, tal como as emoções presentes em cada obra.

PORQUE DECIDISTE COLABORAR COM A QUINTA FILIPPA?

A minha colaboração com a Quinta Filippa tem sido uma experiência transformadora. O período de residência artística e a troca criativa tiveram um impacto profundo no trabalho que desenvolvi durante esse tempo. Acima de tudo, sou alguém que gosta de criar com as próprias mãos, que encontra inspiração na energia genuína de construir, moldar e transformar. Sinto-me verdadeiramente em casa em ambientes onde as pessoas trabalham com as mãos, seja um mecânico a trabalhar no motor de um carro, um chef a preparar um prato especial ou um artesão a transformar materiais em algo novo. A Quinta Filippa representa este espírito de criação manual, e estar rodeada dessa energia influenciou profundamente a forma como abordei a minha arte durante a residência.

FALA-NOS SOBRE AS OBRAS DE ARTE QUE CRIASTE PARA A QUINTA FILIPPA.

As obras que estou a criar para a Quinta Filippa estão impregnadas da energia do próprio ato de criar, de sobrepor camadas, fazer ajustes e responder ao que vai surgindo ao longo do processo. A minha residência artística e esta colaboração deram-me um renovado sentido de experimentação, permitindo-me ultrapassar os meus próprios limites e abraçar o imprevisível. Cada peça reflete esta troca dinâmica, transportando consigo o ambiente e as pessoas que a inspiram.

Para além da energia humana, o espaço envolvente também deixou a sua marca no meu trabalho. As colinas ondulantes (Ondulada, título de outra pintura de grandes dimensões criada durante a minha residência na Quinta Filippa) e a natureza no seu estado mais puro, em contraste com as linhas definidas da arquitetura geométrica, criam uma tensão visual com a qual me identifico profundamente. Estas contradições, entre o orgânico e o estruturado, o fluido e o definido, tornam-se parte das composições, moldando o ritmo e a forma das peças. O confronto entre estes elementos alimenta o meu processo criativo, dando origem a obras que incorporam tanto a harmonia como a inquietação das suas origens.

Quando as obras estão concluídas, o meu papel termina e começa uma nova viagem, que passa a pertencer ao espaço e às pessoas que as experienciam.

@ilsevanstoltz_art

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