Manuel Rodrigues Carreira nasceu a 25 de março de 1878. Com poucos recursos e cinco filhos para sustentar, o pai enviou-o, aos 12 anos, para trabalhar numa quinta no Coimbrão, onde ficou responsável pela guarda do gado. Era também na casa da quinta que pernoitava e fazia as suas refeições. Com uma grande vontade de aprender, pediu ao proprietário da quinta, o Professor Ulisses, que o ensinasse a ler e a escrever, uma oportunidade pouco comum nas aldeias rurais, onde não existiam escolas. Procurou também compreender as unidades de medida, nomeadamente de comprimento e de volume.
Após alguns anos, Manuel pediu ao patrão que acertasse as contas com o seu pai, pois queria aprender um ofício. Quando o Professor Ulisses lhe perguntou por que razão pretendia partir e regressar a uma vida de dificuldades, Manuel explicou, com confiança, que queria tornar-se serrador. Regressou a casa e começou a trabalhar nos pinhais, cortando madeira com uma serra manual, uma tarefa fisicamente exigente e desgastante. Com as pequenas poupanças que conseguiu reunir, começou a trabalhar por conta própria, comprando troncos de árvores para os transformar em tábuas e vigas. Para este trabalho, utilizava-se uma estrutura tradicional de madeira, conhecida como burra, onde os troncos eram elevados e fixados para serem serrados manualmente. Um dos serradores posicionava-se sobre o tronco, enquanto o outro trabalhava por baixo, puxando alternadamente a pesada serra num esforço físico conjunto. Gradualmente, Manuel foi expandindo o negócio, chegando a ter cinco estruturas de serragem e dez trabalhadores ao seu serviço.
Em 1902, Manuel Rodrigues Carreira iniciou a construção da sua casa, que ficou concluída em 1906, como revelaram duas inscrições descobertas durante as obras de recuperação realizadas no século XXI. Construída segundo as técnicas tradicionais da região, a casa era feita de adobe, uma mistura de argila, pedras e água, amassada com a ajuda de bois e posteriormente seca ao sol em moldes de madeira. Orientada a nascente, a habitação apresentava um alpendre típico da região, portadas de madeira e uma grande chaminé sobre a lareira de fogo aberto. Com o passar do tempo, Manuel acrescentou construções de apoio à agricultura, currais para os animais, uma adega e uma eira, criando um conjunto com uma área total de 500 m². A norte, um grande portão com arco de tijolo dava acesso a um pátio espaçoso, onde decorria grande parte da vida quotidiana da família, longe dos olhares de quem passava.
O primeiro filho de Manuel, também chamado Manuel, nasceu em 1909, seguindo-se as filhas Maria, em 1911, Teresa, em 1916, e Albertina, em 1920. Numa época em que o analfabetismo era muito comum em Portugal, sobretudo nas zonas rurais, Manuel Rodrigues Carreira compreendia o poder transformador da educação. Fez questão de que o filho Manuel frequentasse a escola em Monte Redondo para aprender a ler e a escrever, dando-lhe ferramentas para construir um futuro melhor. Em casa, foi o próprio Manuel quem ensinou as filhas a ler e a escrever, uma vez que não existia escola na aldeia. Embora as convenções sociais da época reservassem às mulheres sobretudo as tarefas domésticas e agrícolas, o filho de Manuel Rodrigues Carreira viria a tornar-se carpinteiro e, mais tarde, avaliador de propriedades nos Serviços de Finanças do Estado.
Homem determinado e empreendedor, Manuel Rodrigues Carreira deslocava-se frequentemente na sua fiel égua de raça Garrana para tratar dos negócios ligados à madeira. Embora a sua principal atividade fosse a serragem e a transformação de madeira, o seu espírito empreendedor levou-o a reinvestir os lucros na aquisição de terrenos. Comprava campos a vizinhos que precisavam de dinheiro rapidamente ou que tinham herdado terras, aumentando gradualmente o seu património. Enquanto proprietário, contratava trabalhadores agrícolas para cultivar os campos. Em casa, duas criadas asseguravam as tarefas domésticas, preparavam as refeições da família e cuidavam dos animais. Enquanto Manuel acompanhava o negócio da madeira, os trabalhadores agrícolas dedicavam-se ao cultivo e à manutenção das terras.
No final do verão, a eira, com vista sobre o vale, era o centro da atividade agrícola. Era ali que os cereais e as leguminosas eram secos e preparados: o centeio, o feijão, o grão-de-bico e o milho eram malhados, debulhados e armazenados em arcas de madeira ou em sacos. As espigas de milho eram guardadas num espigueiro, onde a circulação do ar ajudava a conservá-las. As refeições do dia a dia eram compostas por broa de milho, leguminosas e produtos hortícolas, complementados pela carne dos porcos, coelhos e galinhas criados na propriedade. Manuel plantou também oliveiras e vinhas. Todos os outonos, a família participava nas vindimas e na apanha da azeitona, produzindo vinho e azeite, que eram armazenados em grandes recipientes para consumo doméstico. Estes alimentos garantiam o sustento da família e serviam também para alimentar os trabalhadores da quinta.
Em 1943, quando a filha Teresa se casou com Manuel da Silva Azinheiro, Manuel ofereceu-lhe a casa de família, depois de já ter construído habitações para os restantes filhos. Para si, adaptou parte da adega, transformando-a numa pequena habitação com sala, quarto, despensa e cozinha, garantindo o seu conforto e independência, sem deixar de estar próximo da família. No início da década de 1950, Manuel mudou-se para Monte Redondo, onde passou a viver com a filha mais nova, Albertina, para ficar mais perto dos cuidados médicos de que necessitava. Os filhos continuaram a enviar-lhe regularmente azeite, vinho, cereais, leguminosas e carne provenientes dos seus campos. Aos 80 anos, celebrou o aniversário numa grande reunião familiar, rodeado por todos os filhos, genros, noras e netos. Manuel Rodrigues Carreira faleceu em 1968, apenas dois meses antes de completar 90 anos.

